I SIMP²SIO:
RPG em EducaÁ“o
RPG, CULTURA E NARRATIVA [cartaz]

E, ao mesmo tempo, quis que fossem trÍs histÛrias, como se diz, "abertas", que antes de mais nada se mantenham de pÈ enquanto histÛrias, pela lÛgica da seq¸Íncia de suas imagens, mas cuja verdadeira existÍncia comece no jogo imprevisÌvel de perguntas e respostas que suscitam no leitor.

Õtalo Calvino
Pref·cio do livro Os Nossos Antepassados.

A interatividade para a narrativa pode ser entendida em relaÁ“o com os 3 nÌveis de abertura da obra de arte propostos por J™lio Plaza. Em seu primeiro nivel, a pluralidade de interpretaÁžes para a obra encontra-se com o conceito de Obra Aberta de Haroldo Campos e a estÈtica da recepÁ“o de Wolfgang Iser - em que o sentido da obra liter·ria È criado na interaÁ“o desta com o leitor. Aproxima-se ent“o do conceito de histÛrias abertas usado por Õtalo Calvino. No segundo nÌvel de abertura proposto por Plaza, o p™blico pode fazer intervenÁžes na obra, mas sem alterar suas caracterÌsticas estrurais, o que ele exemplifica com as escultura de LÌgia Clark e os parangolÈs de HÈlio Oiticia. Nas histÛrias interativas, este conceito pode ser exemplificado nas aventuras-solo ou livros-jogos, onde o leitor pode escolher dentre alternativas propostas para a trama, porÈm, j· prÈ-definidas pelo autor. No terceiro nÌvel de abertura da obra proposto por Plaza, o leitor pode fazer alteraÁžes estruturais para a obra, criando opÁžes e alterando o enredo a seu critÈrio. Plaza identifica este nÌvel de abertura principalmente para a mÌdia digital. Nas histÛrias interativas, esta abertura pode ser identificada na pr·tica das sessžes de RPG.
A relaÁ“o da narrativa com a cultura e suas relaÁžes com a interatividade est“o no tema deste simpÛsio.

HistÛrias Abertas
Umberto Eco (2001) propže que toda obra de arte carrega um grau mÌnimo de abertura na medida em que pressupže um espectador que ir· recebÍ-la e interpret·-la subjetivamente. Algumas obras contempor’neas, entretanto, v“o alÈm deste grau primeiro ao se construÌrem sobre a intenÁ“o de participaÁ“o transformadora do espectador.
Julio Plaza (2003) amplia este conceito sugerindo que a abertura de primeiro grau consiste na participaÁ“o do receptor na obra como interpretaÁ“o/recriaÁ“o mental; que a abertura de segundo grau pressupže uma participaÁ“o manipulativa do receptor, como no trabalho de Ligia Clark; e que os situacionistas radicalizaram a quest“o, com a criaÁ“o de obras anÙnimas e comunit·rias, baseados no homo ludens: uma produÁ“o coletiva, anÙnima e sem mercadorias artÌsticas, que parece aproximar-se da abertura de terceiro grau, onde existiria efetivamente uma recriaÁ“o da obra por parte do espectador: d·-se o modelo (o sistema, o programa) para que o espectador produza a obra a partir dele. Assim, a obra aberta È muito mais o processo do que o produto.
O RPG acontece muito mais como processo de socializaÁ“o interativa do que como produto. Diferentemente de uma narrativa tradicional, um RPG oferece uma ambientaÁ“o e um sistema de regras, uma plataforma operacional a partir da qual os jogadores constroem, coletivamente, suas prÛprias histÛrias e personagens. Isto quer dizer que um suporte de RPG, seja ele impresso, eletrÙnico ou oral, n“o tem por objetivo oferecer histÛrias completas e fechadas, mas sim possibilidades, autÙnomas e imprevisÌveis, que se realizam em cada momento de jogo.
AndrÈa Pav“o (1999:28) compara o RPG ao hipertexto, "[onde existem] 'janelas' que podem ou n“o ser abertas, trilhas que podem ou n“o ser trilhadas, em oposiÁ“o ý torrente de informaÁžes, que tantas vezes, conduzem-nos ý seduÁ“o da passividade das 'aventuras prontas' nos trilhos da alienaÁ“o".
Deste modo, È de se esperar que, como forma de narrativa hipermidi·tica, o suporte ou produto de RPG se constitua de texto verbo-audiovisual (texto escrito, imagens e a narraÁ“o do Mestre e representaÁ“o das personagens pelos jogadores), onde a disponibilidade instant’nea de possibilidades articulatÛrias permita a concepÁ“o n“o de uma obra acabada, mas de estruturas que possam ser recombinadas diferentemente por cada usu·rio. Estes elementos (ilustraÁžes, textos, linguagem corporal e verbal) funcionar“o como "janelas" ou "links" de informaÁ“o para o jogador sobre o cen·rio onde ser“o construÌdas suas prÛprias histÛrias, e, conseq¸entemente, suas prÛprias imagens, textos etc.
De posse de uma ferramenta como o RPG, em tal cen·rio de possibilidades e com tais regras de abertura, acreditamos que o papel da educaÁ“o possa - e deva - ser maior do que simplesmente repetir os discursos da sociedade; pelo contr·rio, deve abrir janelas de questionamento, iniciando novos caminhos para interpretar o mundo e organiz·-lo.

ReferÍncias:
ECO, Umberto. Obra Aberta. S“o Paulo: Perspectiva, 2001, 8a. ed.
PAVˆO, AndrÈa. A Aventura da Leitura e da Escrita entre Mestres de Role Playing Games (RPG). Rio de Janeiro: EntreLugar, 1999.
PLAZA, Julio. Arte e Interatividade: Autor-Obra-RecepÁ“o. In: Concinnitas, no. 4. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Editora 7Letras, 2003, pp. 7-34.